domingo, 10 de maio de 2020

Capitão América: Guerra Civil

Passaram já uns bons anos desde que assisti a este filme pela primeira vez lá em 2016 e me sinto mais a vontade agora para revisitar criticamente esta obra. Decidi aproveitar que estou em isolamento social devido a pandemia do Covid-19 e não tenho outra coisa com que me ocupar no momento para retomar as atividades como aspirante a crítico. Eu já tinha vontade de fazer isso mesmo. Pois bem, prosseguirei com a minha análise. Eis que Capitão América: Guerra Civil, o décimo-terceiro filme da Marvel Studios e de seu Universo Cinematográfico, é empolgante, divertido e tudo o mais que se espera de um filme da Casa das Ideias. Livremente inspirado na saga Guerra Civil, o filme é tanto uma continuação de Vingadores: Era de Ultron como de Capitão América: O Soldado Invernal e me atrevo a dizer que também poderia ser facilmente o Homem de Ferro 4, visto a importância e o desempenho de Robert Downey Jr e seu Tony Stark na trama deste.

 A história é bem simples, após uma missão dos Vingadores na Nigéria onde ocorrem várias baixas civis os governos do mundo, através da ONU, decidem que a super-equipe liderada por Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans) precisa ser regulamentada por uma série de normas, os Acordos de Sokovia, e que caso não aceitem a imposição sofrerã as consequências cabíveis. O Capitão se posiciona contra enquanto que Tony Stark/Homem de Ferro se posiciona a favor por se sentir culpado pelas vidas que não pôde salvar. Não bastasse o tratado dividir os Vingadores, o passado de Steve volta para atormenta-lo mais uma vez quando Bucky Barnes/Soldado Invernal passa a ser caçado por conta de um ataque terrorista. Em terceiro plano e não menos importante por isso o Coronel (?!) Helmut Zemo (Daniel Brühl) está decidido a obter uma importante informação para executar um plano que pode destruir de uma vez os Heróis Mais Poderosos da Terra.

Muita coisa acontece ao longo do filme, mas os irmãos Joe e Anthony Russo conseguem manter tudo bem amarrado e equilibrado. Os Irmãos Russo, que já haviam dirigido o filme anterior do Sentinela da Liberdade, se provam um grande achado da Marvel. Eles sabem dosar bem as cenas ação, humor e drama. As piadas são bastante fluídas e todas funcionam. Apesar de serem os alívios do filme, não tiram o peso das cenas. A ação não decepciona e alterna boas sequências em planos fechados e abertos, sempre respeitando a geografia da cena. Vide por exemplo à sequência na escadaria ou mesmo a do aeroporto. As cenas de luta são extremamente bem coreografadas e funcionam narrativamente e não apenas como distração. Se alguém tinha dúvida sobre o Pantera Negra, ela não existe mais. O personagem protagoniza algumas das melhores lutas do filme. O mais incrível foi ver que apesar de ter tantos personagens em tela existe uma boa harmonia em relação a suas participações e motivações. Os poderes e habilidades de todos são muito bem utilizados. Há uma cena envolvendo o Homem-Formiga, o Homem-Aranha e uma referência a O Império Contra-Ataca que me fez dar um sorriso de orelha a orelha tamanha a satisfação. O roteiro justifica não apenas as ações, mas as consequências. Apresenta personagens novos de forma dinâmica e não perde tempo revisitando informações já disponibilizadas em outros filmes. Com isso o filme ficou dinâmico e apesar da duração o tempo não é sentido, jamais sendo cansativo ou monótono. O roteiro acerta ainda em não tomar partido na “guerra” de modo que você enxerga os pontos positivos e negativos em ambos os lados. Não existe lado certo e errado, é tudo uma questão de ponto de vista. Apesar disso, nem tudo é perfeito e o filme tem alguns efeitos que podiam ser melhor finalizados. Algumas decisões de roteiro são questionáveis, nada que te tire do filme, mas se for analisar com calma se percebe que se fossem de outro modo teriam ficado mais críveis. Não entrarei aqui em detalhes, pois teria de dar uns bons spoilers do filme. E apesar de tanto tempo é provável que muita gente ainda não o tenha assistido. A exibição no formato 3D, quando vi no cinema, era totalmente desnecessário e mais uma vez serviu apenas para encarecer o preço ingresso e tornar as cenas mais escuras, apesar de a fotografia não ser tão afetada por ele já que quase em sua totalidade as cenas tem tons claros.

O elenco está bem a vontade em seus papéis. Todos tem algum destaque que fazem suas participações serem bem-vindas a produção. Chris Evans, que nunca foi um ator excelente, está perfeito aqui como a personificação de Steve Rogers. O ator realmente abraçou o personagem e está com uma performance mais madura. Ele realmente convence como Capitão América e é difícil imaginar, ainda que no futuro, um outro ator para interpretar o personagem . Mas se tem alguém que convence é Downey Jr. Ele prova neste filme que é ainda um bom ator e sua atuação é a melhor que ele já fez vivendo o personagem. Ele transmite toda a dor, o peso e a angústia que vestir a armadura lhe trouxe. Chadwick Boseman e Tom Holland, que debutam como T’Challa/Pantera Negra e Peter Parker/Homem-Aranha, foram corretamente escalados e convencem como seus respectivos personagens nos deixando com vontade de ver mais deles. O Zemo de Brühl é um bom vilão e suas motivações são bem justificadas. Sua atuação é excelente e teria tudo para ser um vilão inesquecível, não fosse o nome que carrega. Melhor seria se o personagem, tal qual o agente Phil Coulson (Clark Greg), tivesse sido criado um novo personagem exclusivamente para o filme. A descaracterização do personagem talvez seja justificada no futuro, afinal uma frase do personagem me faz acreditar que seu objetivo final é ainda maior. Vale lembrar que o personagem já foi oficializado como vilão da minissérie Falcão e o Soldado Invernal que está sendo desenvolvida para a plataforma de streaming Disney+. Mas como um filme tem de se justificar por si e não por possíveis coisas que talvez possam vir a acontecer numa minissérie cinco anos depois, sendo que nem mesmo existia a possibilidade de produção da mesma na época já o fez não ser o suficiente, se é que me entendem, tirando em parte o peso que poderia ter sido alcançado. O já tradicional cameo do saudoso Stan Lee é o que se espera, rápido e engraçadinho.


O filme é bem amarrado e possui em seu arco um começo, meio e fim satisfatório. O filme terminou com um cliffhanger para produções futuras do MCU (entenda como a centelha para os personagens em Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato) e mais duas cenas pós-créditos que empolgam, sobretudo a primeira. Apesar de ser um filme muito bom, não é o melhor da Marvel Studios. É superior, por exemplo, a Vingadores: Era de Ultron, mas perde em qualidade para Capitão América: O Soldado Invernal (que mantinha até bem pouco tempo atrás o título de ser o melhor da MCU na minha humilde opinião). Ele está no nível primeiro Vingadores e acima do primeiro Homem de Ferro.



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