Godzilla, o icônico kaiju retornou as telas de cinema em 2014 numa nova adaptação americana que prometia ser ao mesmo tempo um reboot quanto o ponta pé para um universo compartilhado de monstros gigantes que, posteriormente, vai colocar o Rei dos Monstros num embate contra o também icônico King Kong. Mas não vamos por a carroça na frente dos bois. Após revisitar este filme vamos ver o que achei dele e o que posso analisar sem tantos spoilers. Nos créditos iniciais do longa somos apresentados a uma série de ataques de bomba nos anos 50 na tentativa de destruir um monstro gigante oculto pelo mar, no que foi disfarçado como sendo os testes da bomba de hidrogênio. Mas a história tem inicio, de fato, no ano de 1999 onde um grupo de cientistas, entre eles o personagem de Ken Watanabe (de O Último Samurai, Batman Begins e Memórias de uma Gueixa), descobrem nas Filipinas os restos de uma grande criatura fossilizada onde estava preservado um grande ovo logo após um grande terremoto abrir uma cratera numa obra. É muita coisa grande, né? Em outro plot é mostrado Joe Brody (Brian Cranston, de Drive, Trumbo e o icônico Walter White do seriado Breaking Bad) que em seu aniversário trabalha na usina nuclear Janjira, no Japão, com sua esposa Sandra (Juliette Binoche de A Insustentável Leveza do Ser, A Liberdade é Azul e O Paciente Inglês) quando tenta interromper as atividades devido a ameaça de um acidente produzido pela mesma coisa que causou o terremoto filipino. No acidente Sandra morre e a cidade é evacuada e abandonada por causa da radiação. Apesar de breve a performance de Juliette Binoche é excelente e a química de sua personagem com o personagem de Brian Cranston proporcionam um dos melhores momentos do filme. Daí a história pula mais quinze anos e chegamos ao ano de 2014 onde somos apresentados ao tenente da Marinha Ford Brody, interpretado pelo inexpressivo Aaron Taylor-Johnson (de Kick-Ass: Quebrando Tudo), filho de Joe que após uma incursão militar volta pra casa, em São Francisco, mas é forçado a viajar ao Japão devido à prisão de seu pai. Joe segue obcecado pelo acidente que o tornou viúvo e acaba por convencer o filho, com o qual não tem muito contato, a explorar a cidade abandonada para descobrir que o acidente serviu para encobrir algo muito, muito maior. É só quando surge um monstro alado gigante que o personagem título desperta para “trazer o equilíbrio necessário”.
É assim que finalmente, com quase uma hora de filme, surge o poderoso Godzilla. Uma história carregada de dramas e conspirações, mas que a partir do surgimento do monstro praticamente abandona o que foi construído no primeiro ato para acompanhar o tenente Ford em sua tentativa de voltar pra casa pra reencontrar sua esposa e filho. Reitero aqui a inexpressividade do protagonista. Taylor-Johnson aqui não tem carisma e quando o roteiro tenta de forma muito rasa mostrar suas emoções as cenas simplesmente não funcionam. Nas cenas ao lado de Cranston, que carrega a melhor atuação do filme, é visível a falta do seu talento. Uma pena o eterno Walter White não ter tanto tempo em cena como gostaria. Já Ken Watanabe, interprete do cientista John, é subaproveitado pelo roteiro e apesar de estar presente do começo ao fim do longa o seu personagem é praticamente inútil pra trama e se limita a fazer a mesma expressão toda vez que ta em cena, podendo até ser retirado do filme sem afetar em nada o seu desenvolvimento. Eu queria inclusive ter visto alguma interação entre Watanabe e Cranston mas o roteiro do filme me privou disso. No núcleo secundário Elizabeth Olsen (a Feiticeira Escarlate de Vingadores: A Era de Ultron, Guerra Infinita e Ultimato) interpreta Elle Brody, a esposa de Ford, que também tem pouco o que fazer em cena e serve apenas para ser a motivação do protagonista em voltar pra casa.
Como era de se esperar, a parte técnica do filme é predominantemente perfeita. A exceção é a sequência em que Ford e Joe exploram a cidade abandonada no primeiro ato onde tudo parece extremamente artificial. Sério mesmo, a direção de arte, ambientação e tudo o mais que compõe a mise-en-scène é tão artificial e soa tão falso que não parece parte de um blockbuster milionário mas sim aqueles telefilmes B feitos pro canal SyFy. Porém no resto do filme a direção de arte está impecável, sobretudo nas cenas que mostram o resultado da passagem e confronto dos monstros por diversos lugares, como Havaí e Las Vegas. Os efeitos especiais são bastante realistas. O design dos monstros é bastante fiel as produções do gênero feitas no Japão e respeitando suas origens, diferente da adaptação americana dos anos 90 onde o Godzilla mais parecia uma lagartixa gigante. Aqui você sente o peso do Godzilla quando ele se movimenta. A montagem e a mixagem do som são o ponto forte do filme. É impossível não se arrepiar, ou até mesmo se emocionar, quando o Godzilla nos brinda com seu potente grito, o que é favorecido ainda mais pela linda trilha composta por Alexandre Desplat. A fotografia funciona bem tanto nas cenas diurnas quanto nas noturnas, e apesar da forma como o diretor optou por filmar os monstros, de forma tipo documental ocultando a visão mais ampla deles durante a maior parte da projeção, você consegue acompanhar de forma orgânica a ação e compreender o que está acontecendo.
Agora chegou a parte de analisar o ponto mais problemático do filme. O roteiro. O roteiro de Max Borenstein é algo que devia ter sido revisado por alguém mais experiente. Não sei qual foi a intenção dele, mas o que o trailer e o material de divulgação me vendeu foi gato por lebre. Cheio de personagens mal trabalhados que entram, saem ou simplesmente morrem sem qualquer relevância. E quando morrem é que é pior, não nos importamos e da mesma forma ninguém no filme se importa. É impossível ter qualquer empatia por qualquer personagem, mesmo quando a história tenta nos vender o bom mocismo, dever cívico idealizado e patriotismo escancarado de Ford. Afinal não foi só eu quem achou piegas, desnecessário e logo descartado garotinho que se separou dos pais, né? Mesmo o personagem-título você não consegue se preocupar com ele, temer por ele. Fica evidente que além do roteiro não desenvolver nem os seus protagonistas ainda apresenta uma trama cheia de furos e decisões que não fazem sentido algum. Tipo, você sabe que há monstros colossais indo em direção a cidade onde sua esposa e filho estão mas você diz para ela ficar lá e aguardar a sua chegada no dia seguinte para só então seguir para um local seguro? Ou então você sabendo que "o monstro do mal" precisa se alimentar de radiação para poder acasalar e leva na direção dele uma bomba radioativa para atacar a criatura? Pois é, acontecem muitas coisas desse tipo durante as duas horas de filme. Se quem assiste tiver muita suspensão de descrença e não se incomodar das escolhas burras apresentadas é possível que se divirta o suficiente. Caso contrário o espectador vai ter muita raiva do filme. Eu, confesso, já estive em ambos os lados.
A direção de Gareth Edwards (do filme Monstros) é bastante competente nas cenas de ação. As coreografias são bem desenvolvidas e são coerentes com o que o filme se dispõe e com a fisionomia das criaturas. Como eu disse antes, você realmente sente o peso que eles tem na movimentação. Os enquadramentos usados são bastante interessantes e às vezes, talvez numa forma de homenagem, lembram outros filmes de monstro como Tubarão e Cloverfield, sendo que nesses dois casos isso de ocultar mais o monstro do que o mostrar fazia mais sentido narrativamente falando. Ainda assim isso não me incomodou. Mas se Edwards é competente neste tipo de cena ele deixa a desejar no quesito direção de atores. A maioria do elenco em cena parece pouco a vontade na encarnação dos seus papéis. Fico pensando se Binoche, Cranston e Watanabe fossem os protagonistas ao invés de Aaron Taylor-Johnson fossem os protagonistas se eles conseguiriam segurar a trama com mais eficiência. Nunca saberemos. Mas que foi um desperdício não usá-los mais, isso foi. No geral é um filme bem mediano, mas cujo final nos deixa com a curiosidade pelos filmes seguintes da franquia. Adianto aqui que achei o Kong: A Ilha da Caveira bem melhor e que ainda não vi o Godzilla 2: Rei dos Monstros, coisa que devo fazer ainda nesse período de quarentena, mas estou empolgado/confiante no vindouro Godzilla Vs Kong. Vou me arrepender? Veremos quando isso tudo passar.

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